sexta-feira, 5 de maio de 2017

Para uma Casa das Ciências renovada e reforçada



Resumo
A Casa das Ciências conta com um novo parceiro institucional a partir de janeiro de 2017, o que lhe permite relançar as suas atividades com a mesma garantia de qualidade e uma nova estabilidade para o médio e longo prazo. O EDULOGthink tank de Educação da Fundação Belmiro de Azevedo assume a responsabilidade de acompanhar este esforço para melhorar a aprendizagem das ciências nas nossas escolas.

A Revista de Ciência Elementar continuará a servir de veículo de divulgação de ciência e das atividades que, com este fim, decorrem em todo o país. Continuará a ser uma revista de professores, para professores. Iniciamos este 5º ano com um formato digital mais amigável e a experiência de uma edição em formato convencional. Esta versão em papel pretende servir de cartão de visita da Casa das Ciências a novos professores e a um público mais amplo.
O repositório da Casa continuará a acolher novos materiais para os disponibilizar em Creative Commons a toda a comunidade. É um exercício de partilha onde a avaliação por pares apoia a melhoria das propostas dos professores e dá uma garantia da qualidade do que é publicado.
O banco de imagens vai continuar a crescer na sua coleção de imagens com descritivos simples, mas efetivos para o seu uso em ambiente escolar.
A WikiCiências é um ambicioso projeto de apresentação de conceitos científicos numa linguagem que satisfaz tanto os não iniciados como os especialistas e que responde a uma enorme procura em língua portuguesa. As cerca de 200.000 visitas mensais são disso sinal claro e incentivo para que o esforço seja mantido e que alarguemos o conjunto dos nossos colaboradores.
À Fundação Calouste Gulbenkian e ao seu administrador Marçal Grilo que me lançou em 2007 o desafio de criar uma iniciativa para apoiar os professores das áreas científicas do ensino básico e secundário e permitiu o lançamento e a consolidação da Casa das Ciências nos seus primeiros 8 anos de vida, um singelo Muito Obrigado. Neste sinal de gratidão, creio poder envolver os 7 colegas na Comissão Editorial que aceitam a responsabilidade científica do projeto, os mais de 500 professores e investigadores que já apoiaram a Casa como autores ou avaliadores, os 1.300 professores que participaram nos primeiros 3 encontros internacionais, os 15.000 membros da Casa que a frequentam com regularidade e os alunos que indiretamente já beneficiaram deste trabalho de grupo.
Marcamos encontro em Lisboa, 10-12 de julho próximo, para o maior encontro de professores de ciências. Com o novo parceiro, vamos reafirmar a missão de fortalecer o ensino das ciências em Portugal.
Referência Gomes, JANF (2017) Editorial, Rev. Ciência Elem., V5(01):001
DOI doi.org/10.24927/rce2017.001



A Revista de Ciência Elementar ISSN 2183-1270 (versão online) está disponível com acesso aberto.
A versão impressa ISSN 2183-9697 é enviada gratuitamente aos colaboradores regulares da Casa das Ciências e pode ser recebida pelo correio mediante o pagamento das despesas de preparação e envio, €10 para os quatro números do ano de 2017.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Há aqui oportunidades para Penafiel


NOTÍCIAS DE PENAFIEL | QUINTA-FEIRA, 13 ABRIL 2017
Esta semana entrevistamos José Ferreira Gomes. Natural da freguesia de Bustelo, este Penafidelense, apaixonado pela sua terra, é, desde 1985, Professor Catedrático de Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Doutorado, em 1976, em Química Teórica pela Universidade de Oxford foi, em 2009, cabeça de lista do PPD/PSD pelo Distrito de Bragança, tendo vindo a tornar-se Deputado à Assembleia da República na XI legislatura. De 1998 a 2006 foi Vice-Reitor da Universidade do Porto. De 27 de julho de 2013 a 29 de outubro de 2015 foi Secretário de Estado do Ensino Superior. É, desde 6 de março de 2017, Presidente do Conselho Geral da Universidade da Beira Interior.

Em traços gerais como classificaria o ensino em Portugal?
Estamos marcados por um atraso na percentagem dos nossos jovens que terminam o ensino secundário. A prática na Europa, e já bem enraizada no século XX, é que a grande maioria dos jovens se mantém na escola até aos 18 anos, mesmo nos países em que não é obrigatório frequentar a escola até essa idade. O problema em Portugal é que a filosofia dominante na segunda metade do século XX, em especial no período pós 1974, foi uma filosofia de via única. A política oficial recaiu na valorização do Liceu muito vocacionado para uma via puramente académica, abandonando todas as alternativas. Em Penafiel, à semelhança do que aconteceu no restante país, o Colégio do Carmo foi comprado pelo Estado. O sistema antigo, muito assente na iniciativa privada, foi absorvido por um sistema público de via única. Não existia alternativa para os jovens a quem um percurso mais académico não diz muito. Este foi uma grande falha do sistema educativo. Em 2010, pouco mais de 50% dos jovens com mais de 18 anos obtinham o diploma final do ensino secundário. Este atraso combate-se criando vias de ensino profissionalizantes. O que aconteceu em Penafiel, a escola técnica ser fechada e integrada no ciclo preparatório (via única), aconteceu em todo o país. Foi feito com a melhor das intenções, mas, ao bloquear uma via mais profissionalizante no percurso educativo, acabamos por expulsar da escola muitos jovens não encontram ali as respostas adequadas às suas necessidades. À medida que o ensino se torna quase universal, é necessário encontrar ofertas muito diversas que respondam às diferentes necessidades e anseios dos alunos e das famílias. Nos últimos anos, tem havido alguma recuperação. Mesmo nos chamados “anos da troika” houve uma grande diminuição do abandono escolar. Na primeira vintena de anos deste século houve um esforço no sentido de tentar recuperar uma certa diversificação do ensino. No ensino superior aconteceu um processo algo semelhante: para poder acolher um número crescente de jovens este está em franca diversificação.

Como avalia, até ao momento, a actual direcção governativa no ministério da educação?
No ensino superior a postura de diversificação impulsionada com a criação dos cursos de Técnicos Superiores Profissionais, TeSP, em 2014 manteve-se com este Governo. Apesar de algumas resistências tem-se avançado rapidamente nesse sentido. No ensino básico e secundário existe uma oscilação ideológica muito prejudicial. Existe uma corrente ideológica, ainda muito forte e condicionante, que defende e impõe a existência de um modelo único de escola, de uma proposta única para todos os jovens. Esta visão tem a intenção de não perpetuar diferenças que vêm de trás, resultantes dos enquadramentos sociais de partida. O resultado já verificado é que esta opção acaba por afastar muitos jovens da escola ou torna-la irrelevante. Temos experiência de cinquenta anos disso em Portugal. Alguns “tiques” das reformas dos últimos tempos vão no sentido da excessiva uniformização. Quando se fala em reduzir os exames a um programa mínimo, isso significa que vão ser reduzidos os incentivos a que um grande número de jovens seja mais ambicioso que esse programa mínimo. O efeito é que os jovens com uma estrutura familiar mais exigente vão optar por um percurso diferente fora do sistema público. Com esta tendência escolar de diminuição da exigência para que quase todos possam cumprir o programa, aquela faixa com menor possibilidade de escolha vai ficar mais limitada. Uma estratégia com a intenção de proteger os mais frágeis socialmente acaba por prejudica-los por não terem opção a uma escola empobrecida. Temos que criar as condições para que as escolas ofereçam um acompanhamento mais personalizado aos alunos, ajudando os professores a acompanhar uma massa de alunos naturalmente diversa, mas reduzir a exigência é contraproducente para muitos jovens que veem, assim, o seu percurso académico e profissional tornar-se mais restrito e limitado.

Quais as principais dificuldades que sentiu enquanto Secretário de Estado do Ensino Superior?
A minha experiência como Secretário de Estado do Ensino Superior decorreu num período de enorme contenção financeira da parte do Estado, até por imposição externa, e com alguma redução orçamental para as instituições do ensino superior público. No essencial, esta situação ainda se mantém. No entanto, considero que não foi esse o espartilho mais difícil de gerir. O dinheiro por si só não resolve os problemas. No entanto, é verdade que o nosso Ensino Superior público é relativamente barato em relação às médias da OCDE. Para podermos ter resultados comparáveis com as médias europeias temos, também, que ter orçamentos comparáveis. Na Irlanda, no período da troika, houve uma redução de 30% no número de docentes, algo que em Portugal não aconteceu. Entre nós, essa redução foi muito pequena e, atualmente, o rácio docente/discente, em Portugal, é igual à média da UE. Portanto, excluído o factor financeiro que considero que foi gerível, a maior dificuldade que senti prendeu-se com a resistência à reforma. Isto foi muito claro na criação dos TeSP mas também na construção de um modelo de financiamento por objetivos. O nosso sistema educativo está a atingir uma fase que considero ser de maturidade. O número de alunos no ensino superior estabilizou em 2000, é um número que compara muito bem com o verificado noutros países (maior do que em Espanha por exemplo). Existiu e existe um problema social relevante que se prende com o desemprego de licenciados, não é um problema novo, mas que se agravou nos anos da crise. Pensemos que as Primaveras Árabes, que tanta esperança provocaram no Norte de África e no Médio Oriente, resultaram, primariamente, de uma grande frustração por parte dos jovens, muitas vezes licenciados por instituições de qualidade duvidosa, que não encontraram respostas no mercado de trabalho face a um crescimento muito rápido na frequência no ensino superior. Sociedades cujas economias não se encontrem em rápido crescimento não permitem satisfazer as expectativas dos jovens. O objetivo da política e dos governos, é fazer as pessoas felizes. A felicidade não se cria gerando expectativas que não podem ser realizadas. Manter as expectativas altas é fantástico, mas sem descolar da realidade. Respondendo à sua questão, a maior dificuldade que senti foi a resistência às reformas que considero serem necessárias no sentido de promover uma maior diferenciação no ensino que permita uma resposta adequada e satisfatória a todos os alunos. Não deixando ninguém para trás.

Como avalia a situação actual no seu concelho natal, Penafiel?
Penafiel teve uma grande importância no passado, difícil de compreender hoje em dia. A segunda metade do século XVIII é marcante, mas o crescimento já fora rápido no século anterior. Se a subida a cidade é um “acidente” da política do Marquês de Pombal contra o Bispo do Porto, a verdade é que isso traduziu-se num impulso para a economia, para uma certa manufatura artesanal que existia na altura e uma dinâmica comercial muito forte. A feira de S. Martinho tinha uma importância verdadeiramente nacional. Era um espaço de excelência onde os artesãos estabeleciam o seu comércio. Essa importância perdeu-se durante a segunda metade do século XIX. Terminada a guerra civil, Penafiel não conseguiu dar o salto da industrialização, ainda que modesta, que outras regiões deram. As indústrias de fiação de tecidos, tão típicas em concelhos vizinhos, não foram capazes de se implantar em Penafiel. Manteve o pendor agrícola, mas a agricultura perdeu o seu peso relativo na economia nacional ao longo de todo o século XX. Existem alguns casos de sucesso de propriedades agrícolas que souberam dar a volta e apresentar produtos de qualidade para a exportação, mas são poucos e insuficientes.
Presentemente, a realidade de Penafiel é indissociável do facto de ser um concelho muito próximo do Porto. Pode ser um centro de desenvolvimento complementar ao Porto, potenciado pelas boas vias de comunicação existentes. Penafiel pode ser, ainda, um centro de comércio importante em toda a região do Tâmega e Sousa. Numa época de rápido processo de diversificação dos destinos turísticos, a Rota do Românico deve ser potenciada ao nível nacional e internacional. Numa região muito alargada, Penafiel tem a vantagem competitiva de ser, dentro da rede concelhia do Liberalismo, aquele que se centra numa cidade que vinha já do século XVIII. A proximidade do Porto e os serviços que o Porto oferece, sem as pressões urbanas típicas das grandes cidades, são sempre aspectos muito positivos a considerar e procurados por empresas modernas. Dito isto, uma região é sempre o resultado daquilo que as suas populações forem. Uma estratégia de desenvolvimento da terra tem, forçosamente, que estar associada à correspondente estratégia educacional. Aí Penafiel tem que recuperar algum atraso nomeadamente no referente ao abandono escolar precoce, ainda relativamente elevado. Penafiel tem que ter uma estratégia de fixação de vias profissionais e educacionais adaptadas à realidade económica da região. Cerca de 60% dos jovens, média nacional, não vai frequentar a universidade. Esses necessitam de respostas, de âmbito regional, ao nível de um ensino profissional ajustado às suas necessidades, às necessidades da economia local e à estratégia de desenvolvimento. Esta ligação entre a oferta educativa e a estratégia de desenvolvimento está a ser feita com a criação dos TeSP mas tem de ser reforçada e ser corrente também nas opções profissionais terminais do secundário. Há aqui oportunidades para Penafiel já que a rede de oferta desta nova fileira de ensino superior vai ser mais densa e mais ajustada às necessidades regionais. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A ciência portuguesa está de boa saúde?

A ciência portuguesa está de boa saúde?

Seria anacrónico continuar a avaliar a saúde da ciência portuguesa apenas pelo número de artigos publicados. Este é um indicador inicial de atividade, mas nunca um objetivo. Infelizmente, no nosso caso, o indicador é bom, mas o objetivo está muito longe de atingido. Os nossos trabalhos têm ainda pouco impacto e há um enorme atraso na capacidade de valorizar o trabalho científico produzido.
A Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) acaba de publicar as estatísticas da produção científica portuguesa em 2015 e a comparação com a dos nossos parceiros europeus. (Estes são os dados mais recentes porque há um atraso considerável entre a publicação nas revistas de circulação internacional e a sua referenciação nas duas bases de dados internacionais disponíveis para este fim, a Web of Science e a Scopus.) A DGEEC utiliza a Web of Science. Teremos ultrapassado em 2015 pela primeira vez a média da União Europeia do número de artigos científicos publicados por milhão de habitantes!  Tínhamos ultrapassado já a Alemanha em 2014, a Espanha em 2013 e a Grécia, a França e a Itália em 2012. Os cientistas portugueses merecem os parabéns por este feito e têm de partilhar esta alegria com a sociedade portuguesa que lhes criou as condições para chegarem, neste aspeto, ao convívio da Europa. Uma novidade absoluta na nossa história!
Estamos bem na comparação com os países do sul da Europa: estando Portugal marginalmente acima da média da União, a Espanha fica-se pelos 91%, a França e a Itália nos 84% e a Grécia nos 75%. Dos países forçados a recorrer a auxílio financeiro externo, fomos o único a não perder cota de produção. Mesmo a Irlanda, que tem um sistema científico particularmente eficiente, não conseguiu evitar uma queda que se manifesta a partir de 2010. (Note-se que, no caso irlandês, os cortes foram feitos em 2008 com uma quebra do pessoal docente universitário de mais de 20%.) Estes resultados vêm comprovar que foi de facto possível proteger o sistema científico durante o período de intervenção externa e que a visão alternativa de que o sistema científico estaria a sofrer gravemente não passou disso mesmo, de um facto alternativo que não sobrevive à verificação independente!
Mas a celebração não deve obscurecer uma realidade mais complexa. Em especial, temos de reconhecer que, se o número de artigos publicados já atingiu um nível confortável, o impacto destes artigos na comunidade internacional é ainda limitado. Segundo os últimos dados disponibilizados pela DGEEC que se referem às publicações em 2010-14, estamos abaixo da média da União Europeia em quase todas as áreas com a exceção de 6 das 22 consideradas pela Web of Science. Sinal desta realidade é a posição modesta de Portugal na seriação pelo número de publicações entre as 10% mais citadas. O quadro síntese do European Innovation Scoreboard 2016 evidencia a nossa posição confortável (acima da média europeia) no número de doutorados anuais e um baixo desempenho em publicações de grande impacto. A generalidade dos indicadores relacionados com a presença das empresas e o emprego em áreas inovadoras fica muito aquém das médias.
Fig. Portugal ocupa a 4ª posição no número de novos doutorados anuais e a 29ª de 36 países no emprego em atividades de conhecimento intensivo. [http://ec.europa.eu/growth/industry/innovation/facts-figures/scoreboards_pt]
Estes dados apontam muito claramente o que a ciência portuguesa conseguiu depois de 30 anos de esforço e deixam pistas para a definição das políticas de consolidação. Indicadores manifestamente positivos são o número de publicações e o número de novos doutorados; temos de progredir no impacto (medido pelo número de citações) das publicações e em tudo que se relacione com a valorização dos resultados da investigação.
Se o país conseguiu proteger o investimento público em I&D, o mesmo não aconteceu com o investimento privado que baixou consideravelmente. Quem tenha observado o desaparecimento de grandes empresas nas áreas de telecomunicações e financeiras não ficará surpreendido com aqueles resultados. O aparecimento de pequenas empresas de base tecnológica não terá ainda permitido a retoma do investimento privado em I&D, talvez por elas serem ainda muito dependentes dos fundos públicos.
A formação doutoral continua muito fechada dentro da investigação académica e poucos serão os jovens doutorandos que imaginam um futuro profissional no setor privado. Embora tenhamos um setor público de ensino superior bem equipado com pessoal doutorado, mesmo acima de outros países mais ricos, a penetração no setor empresarial privado é ridiculamente baixa. Talvez por culpas dos dois lados. De um lado, os doutorados não saberão apresentar-se a um empregador privado e demonstrar o seu valor potencial para a empresa; do outro, os gestores empresariais não saberão o que poderão ganhar com uma tal contratação. Esta realidade é bem compreensível se atendermos a que muitas empresas de pequena ou média dimensão só muito recentemente começaram a contratar licenciados (ou mestres).
Não tenhamos dúvida de que o retorno do investimento que o país tem feito na formação doutoral depende de criarmos condições para que a maioria dos novos doutores ponham o seu saber e competências a render no setor privado. Assim acontece nos países que fizeram este caminho mais cedo. Se cerca de 50% dos nossos jovens chegam já ao ensino superior e talvez uns 80% destes saiam com um diploma, não é exagerado termos 2,5% da coorte a seguir até ao doutoramento. Mas temos de saber orientar essa formação avançada para atividades fora do setor público e fora do setor de ensino superior. Será aí que a maioria vai construir o seu percurso profissional e vai obter o retorno do enorme investimento inicial feito num longo percurso educativo.
O aumento do impacto da ciência que se faz entre nós exige uma reforma do SNCT (Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia). O que temos vem dos anos de 1980 quando dávamos os primeiros passos e a atividade científica era quase desconhecida nas nossas universidades. Seria imperdoável que hoje não mantivéssemos a sustentabilidade das nossas instituições de ensino superior e não fôssemos muito seletivos na escolha dos melhores para assumirem as responsabilidades como docentes de carreira e assim levarem o país a outro patamar na sua capacidade de inovação social e empresarial. Infelizmente os sinais legislativos mais recentes vão numa direção muito diferente.
[Dados estatísticos em http://maissuperior.blogspot.pt/2017/04/a-ciencia-portuguesa-esta-de-boa-saude.html]
Publicado em 05abr2017 http://observador.pt/opiniao/a-ciencia-portuguesa-esta-de-boa-saude/



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mais de 11 500 alunos frequentam cursos superiores profissionais

TRÊS PERGUNTAS A JOSÉ FERREIRA GOMES
“Politécnicos de Lisboa e Porto não estão a cumprir a sua missão”


O ex-secretário de Estado do Ensino Superior José Ferreira Gomes critica os dois maiores institutos do país por não terem apostado nos cursos técnicos superiores profissionais (TeSP), lançados por si em 2014. As mudanças introduzidas pelo actual Governo também lhe merecem reservas. Estes cursos não podem ser ‘desnaturados’, avisa.
Qual é a mais-valia de um curso TeSP para os estudantes? Será a alta empregabilidade destes cursos. Ainda não a conseguimos avaliar, porque os TeSP estão ainda no seu início, mas nestes cursos um aluno sai mais rapidamente para o mercado de trabalho e com uma garantia de emprego muito mais alta do que a de um licenciado. Isto acontece porque estes cursos estão muito sintonizados com o mercado de trabalho local. Por outro lado, o ensino secundário tornou-se obrigatório e, dentro de pouco tempo, 30 a 40% dos estudantes que terminam o secundário terão feito um curso profissional. Pela natureza dos seus percursos, nem todos estes alunos vão querer fazer uma licenciatura. Os TeSPp são uma solução excelente para aqueles que terminam o ensino profissional e querem ir um pouco mais longe. Um curso profissional prepara para um posto de base no mercado de trabalho, enquanto o TeSP prepara para uma posição de direcção intermédia.
Era possível ter feito as coisas de forma diferente para evitar o arranque a “meio-gás” dos Tesp em 2014/15? O decreto-lei foi aprovado com algum atraso, mas também houve — e ainda há — resistências de algumas instituições. O número de inscritos que agora é conhecido é excelente e vai ao encontro do que tínhamos projectado, que são cerca de 10 mil diplomados por ano. Mas este número podia ser maior. Lisboa e Porto são as duas cidades onde se concentra a maior parte da procura no ensino superior, mas onde, nos TeSP, a oferta se centra quase só nas instituições privadas. Os politécnicos de Lisboa e Porto [o do Porto tem TeSP fora da cidade, no pólo de Felgueiras] não estão a cumprir a sua missão como instituições públicas. Quando o fizerem, os números serão ainda melhores.
O actual Governo facilitou o acesso dos diplomados dos TeSP a uma licenciatura. Concorda com a mudança? É uma alteração que pode desnaturar estes cursos. Os TeSP não devem ser vistos pela população como uma ponte para o ensino superior. Se assim for, perdem a sua natureza e torna-se pouco útil o estágio que faz parte da formação e que serve para a aproximação do estudante com o mercado de trabalho. É correcto que um estudante que termina um TeSP possa passar a uma licenciatura, mas tornar isso o normal é mau. Por um lado, nem todos estes estudantes vão estar devidamente preparados para entrar numa licenciatura, e, por outro, a sociedade portuguesa precisa destas qualificações intermédias. Se visse passar mais de 20% dos diplomados dos TeSP para licenciaturas, seria motivo de preocupação.

domingo, 2 de abril de 2017

A ciência portuguesa está de boa saúde - Dados estatísticos

Recolhem-se aqui alguns dados estatísticos de apoio ao texto em http://maissuperior.blogspot.pt/2017/04/a-ciencia-portuguesa-esta-de-boa-saude_5.html
e em http://observador.pt/opiniao/a-ciencia-portuguesa-esta-de-boa-saude/

1. Publicações científicas na União Europeia
2. Dados recolhidos do  European Innovation Scoreboard
3. Quadro sumário do European Innovation Scoreboard 2016

1. Publicações científicas na União Europeia

Extraído de

Número de publicações* indexadas na Web of Science por milhão de habitantes** nos vários países da União Europeia: 2005, 2010 e 2015
Web of Science (Science Citation Index - SCI)
Consultado em 02-abril-2017
2005 2010 2012 2013 2014 2015
Alemanha 1,0346 0,9999 0,9818 0,9681 0,9600 0,9652
Áustria 1,2436 1,2868 1,2666 1,2723 1,2977 1,3323
Bélgica 1,4086 1,4235 1,4206 1,4297 1,4440 1,4280
Bulgária
Chipre 0,4207 0,7129 0,8552 0,9342 0,9396 0,9311
Croácia
Dinamarca 1,8903 1,9689 2,1025 2,1391 2,2691 2,3580
Eslováquia 0,4141 0,4831 0,4695 0,4619 0,4835 0,4761
Eslovénia 1,1741 1,3573 1,5038 1,4681 1,4092 1,3696
Espanha 0,8124 0,8894 0,9255 0,9222 0,9290 0,9106
Estónia 0,6281 0,8408 0,9206 1,0040 1,0612 0,9573
Finlândia 1,7661 1,6590 1,6334 1,6397 1,7334 1,6975
França 0,9739 0,9194 0,8465 0,8364 0,8196 0,8391
Grécia 0,8247 0,8961 0,8033 0,7649 0,7503 0,7475
Holanda 1,6101 1,6625 1,7407 1,7322 1,7293 1,6580
Hungria 0,5600 0,4796 0,5038 0,4990 0,5165 0,5353
Irlanda 1,5549 1,6762 1,6794 1,6664 1,6363 1,5723
Itália 0,8239 0,8338 0,7979 0,8174 0,8083 0,8397
Letónia 0,1629 0,1748 0,2252 0,2310 0,2423 0,2760
Lituânia 0,3056 0,4965 0,5413 0,5089 0,5463 0,5460
Luxemburgo 0,4416 0,9077 1,1116 1,3043 1,4482 1,3419
Malta 0,1780 0,2599 0,3903 0,4643 0,4619 0,5187
Polónia 0,4185 0,4780 0,4691 0,4693 0,4881 0,5462
Portugal 0,5800 0,8074 0,8997 0,9538 0,9685 1,0034
Reino Unido 1,4123 1,2915 1,3447 1,3444 1,3161 1,2398
República Checa 0,6545 0,8026 0,7896 0,7809 0,8479 0,8918
Roménia
Suécia 2,1086 1,9152 1,9389 1,9564 1,9889 1,9820
Total - Rom-Croá - Bulg 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000 1,0000

Quadro com o número de publicações por milhão de habitantes, relativo à média da União Europeia (excluindo a Bulgária, a Croácia e a Roménia por não haver dados para todo o período.)




2. Dados recolhidos do  European Innovation Scoreboard
Portugal ocupa a 4ª posição no número de novos doutorados anuais e a 29ª de 36 países no emprego em atividades de conhecimento intensivo. 




3. Quadro sumário do European Innovation Scoreboard 2016: