Andreas Schleicher, Diretor para a Educação e Competências da OCDE, veio a Lisboa dizer (Público, 13 de setembro) que o elevador social construído com o apoio da própria OCDE estava errado. Que estaremos a prestar um péssimo serviço a uma criança se lhe dissermos “Está bem, como vens de uma família pobre, vou facilitar-te as coisas”; na Ásia, dirão sempre “Vens de uma família com dificuldades, tens de te esforçar mais do que toda a gente, vou apoiar-te melhor e vou dar-te os melhores recursos.” É assim que temos alunos das regiões mais desfavorecidas da China litoral com melhores resultados no PISA 2025 do que os alunos de meios privilegiados em Portugal. E que o impacto socioeconómico é menor na China, no Japão e na Coreia do Sul do que entre nós. É muito chocante para uma Europa que se julgava socialmente desenvolvida.
Infelizmente, foi necessário deixar abrir um tremendo fosso entre os jovens da OCDE e os da Ásia oriental para que haja um toque a rebate com um tímido mea culpa da própria OCDE. Em Portugal, os comentários oficiais não foram tão longe. Uns pedem mais estudos, outros culpam as novas tecnologias, como se elas não tivessem chegado ao oriente. Tudo corria bem, com estatísticas internas a melhorar e o acesso ao ensino superior a crescer. Como em 2000, talvez o indicador PISA esteja desadaptado. Ou seremos mesmo capazes de melhorar o desempenho do sistema escolar até aos 15 anos?
Discutir o ensino secundário não é olhar só para a via científico-humanística, a que está desenhada para o prosseguimento de estudos no ensino superior. A via profissional é igualmente importante para o país e para os jovens. Entre nós, foi tomada a sério muito tarde, mas tem hoje um peso significativo e não merece o ostracismo a que a política e os meios de comunicação social a votam. Precisamos de saber mais do bom trabalho que ali se faz e também do que é preciso melhorar. No PISA 2025, 75% da amostra estudantil estava no 10º e 11º anos de escolaridade, pelo que nos diz bastante do tipo de alunos que opta por uma e outra via. A pontuação média a ciências dos alunos que já frequentam o ensino secundário, é de 523 para os cursos científico-humanísticos e 430 para os cursos profissionais (EduQA, Relatório Nacional PISA 2025), uma distância de 93 pontos que deve ser apreciada pela estimativa da OCDE de que um ano de escolaridade implica um ganho médio de 20 pontos. Isto é o que sabemos do nosso ensino profissional porque não existe nenhum indicador comparativo nacional. (Isso é possível. Na Irlanda mais de 95% de todos os jovens fazem um exame nacional terminal de matemática no ensino secundário.)
As enormes carências nas ciências também se refletirão nas áreas de leitura e de matemática consideradas competências básicas à saída da escolaridade obrigatória. Este simples indicador revela o enorme desafio de recuperação das competências mais básicas de todos estes jovens e das prováveis enormes diferenças entre eles. Uns quererão fazer esse esforço de recuperação, se devidamente apoiados. Outros terão menos motivação e terão de ser orientados para um percurso que os capacite para uma vida autónoma e feliz.
Podemos acreditar que o nosso sistema educativo está a conseguir atingir estes objetivos? Na verdade, não sabemos. Temos de aceitar que a recuperação do enorme abandono precoce conseguida nos últimos 25 anos terá ainda algumas sequelas. Era de 44% em 2000 e é hoje de 6%, um valor que compara muito bem com o resto do mundo. Esta redução foi conseguida pelo desenvolvimento rápido da via profissional, mas a escola e os seus professores tiveram de se adaptar a uma nova população estudantil que vemos pelo simples indicador PISA que é muito diferente. Não admira que ainda haja fragilidades, mas é necessário criar alguns indicadores de desempenho que mostrem como estamos a evoluir, sabendo da enorme fragilidade da massa estudantil admitida. Agora que a OCDE tem a coragem de assumir que os resultados se conseguem com esforço apoiado pela escola e não pelo facilitismo, temos o caminho aberto para encontrar as nossas soluções.
É sabido que os nossos jovens vão competir num mundo globalizado e que não chega ser o melhor na sua aldeia, nem na sua cidadezinha europeia. A competição global não é só no comércio e na segurança, vai ser baseada nas competências dos jovens de hoje e líderes de amanhã. Teremos certamente de ponderar a melhor forma de lidar com computadores, telemóveis e inteligência artificial na escola. Mais urgente é abandonar imediatamente as experiências da última década que falharam, apesar do aumento de despesa, da melhoria das condições físicas das escolas e das condições socioeconómicas das famílias. Já tínhamos conseguido lidar com o sobressalto dos maus resultados do PISA 2000 e perseverar numa linha própria de progresso apesar do continuado declínio da OCDE. Sim, já o fizemos, já provamos que é possível.
José Ferreira Gomes, Reitor da Universidade da Maia
13/set/2026
Publicado em: Jornal Público, 15/set/2026
